Eu já só vou ao Modelo (perdão, Continente!) pelas histórias...

Está para acontecer a primeira vez que eu consiga ir às compras ao Modelo (perdão, Continente!) e não traga uma bonita história. Às vezes é curta e partilho só no Facebook, outras é catita, como o dia em que a senhora da caixa me disse que mijava mais sempre que comia nabiças, e venho aqui contar. A história de hoje é dessas que eu preciso de espalhar pelo maior número de pessoas possível, para que me alivie o fardo.

Kramer está de férias, decide que quer fazer grelhados e fica a dormir enquanto envia a escravinha Isaura às compras. Tudo bem, também hás-de ficar a cheirar a fogareiro, a mim que me importa! Mamãe cola-se à boleia. Como mamãe é garota para já ter direito a desconto de idoso no Centro de Saúde, tem que fazer tudo de manhã, é daquelas coisas que acontece às pessoas depois de uma certa idade: do meio-dia para a frente já é tardíssimo. E por isso acordei cedo demais para alguém que também deveria estar numa espécie de férias e se deitara perto das 2h porque ficara a re-re-re-rever episódios da primeira série do The Apprentice. O fashion statement sonolento (aka de olhos fechados, mesmo!) foi um par de calças de ganga, uns ténes da Merrel e um top que me custou 2,50€ na Primark e que tem um decote pronunciado. Não pensei mais no assunto, saí de casa assim mesmo, enfiei-lhe um casaco de malha por cima, que eu sou como as velhas, se saio de casa antes das 9h sinto sempre um fresquinho nos braços. 

Foi nesta figura miserável, com olheiras até ao chão e o cabelo deslavado, que me encontrei na caixa pelas 10h. Mamãe procede à sua compra, eu vou de seguida. Um senhor chega uns minutos depois e eu penso "Que se lixe, hoje não vou deixar passar à frente só porque tem menos objectos. Há mais caixas abertas..." E fui continuando a retirar objectos do carrinho, vergando-me automaticamente como uma daquelas máquinas de montar carros na Auto Europa. Notei que o senhor, de 10 em 10 segundos, remexia o cesto. 

"Esqueceu-se de alguma coisa", pensei primeiro.
"É compulsivo", pensei segundo.

* ouvidos a zumbir com o evento que se seguiu *

Preciso escrever isto da forma mais clara possível para que não exista qualquer equívoco acerca do que aconteceu: o senhor remexe o cesto pela nonagésima vez, tira uma lata de atum, coloca a lata de atum, e não posso enfatizar isto suficientemente, sobre as calças, na zona da braguilha, exactamente por cima de um visível alto na área do pénis, evita o contacto visual comigo e muda rapidamente de caixa.

Ora, o senhor podia ter uma hérnia (lamento se é esse o caso, só tem piada porque não é comigo), mas eu gostava de acreditar que os meus 2,50€ foram bem gastos já que ofereceram ao senhor uma gostosa experiência matinal.

Agradeço que, da próxima vez que algum de vós fique entusiasmado com a minha presença, não utilize uma lata de atum para ocultar a erecção, porque:

a) é comida que aprecio e agora, durante algum tempo, a embalagem de Bom Petisco vai ficar associada à virilha de um homem de meia idade;
b) é triste pensar que uma lata de atum é o suficiente para esconder uma pilinha pronta para a acção.

Karvela (o Viagra dos pobres desde 1994 - podia ser desde 1979 mas eu era um bebé pouco sexy)

Comentários

Piston disse…
Há gente que não gosta do Rui Teixeira que é capaz de discordar de ti.
Mariam disse…
De antologia! Tu matas-me a rir!

Mas olha que sincero o amor dele. E que modesto, porém, e também. Podia ter sacado dos rolos de papel de cozinha, ou da palete do leite. E, no entanto, conformou-se com uma latinha de... quê? 10 cm?