domingo, janeiro 09, 2011

Sacudir o paninho. Breve ensaio acerca de uma prática ancestral.

A dona de casa a tempo parcial que há dentro de mim põe-se às vezes a filosofar. Hoje pondero sobre  uma prática que me sempre me escapou e me confundiu durante anos a fio: o gesto universal de sacudir o paninho do pó entre passagens pela mobília e bibelots. 

Sacudir os naperons ainda se compreende (naperões, naperiões... é um objecto tão inútil que nem o corrector ortográfico o aceita...). Quando uma pessoa sente a urgência menopáusica de cobrir todo o mobiliário com rendas é bem que se lhes limpe o pó. Mas numa era de swiffers, toalhitas embebidas em óleo de cedro e outros instrumentos que ofendem a natureza mas poupam as vias respiratórias - há um delicado equilíbrio entre ser ecológica e alimentar a indústria farmacêutica; até ver, prefiro não espirrar até me saltar meio metro de intestino só porque aprecio não viver numa pocilga - parece-me errado utilizar um arcaico pano, passar o dito pela mobília, correr até uma janela com o pano na mão e chegar a uma janela. 

Toda a vida vi pessoas a fazer isso. As mães das minhas amigas chegavam-se à janela e flap flap flap; e as minhas amigas, quando chegava a altura das mães lhes pedirem uma ajuda lá em casa faziam o mesmo. Ainda há poucas semanas surpreendi uma das minhas primas, adolescente imigrada da urbe, a flapar. Curiosamente poucas vezes vi a minha mãe a fazer o gesto. Aliás, se há coisa que mamãe Karvela aprecia é chegar das compras com um produto novo e fazer uma rápida e orgulhosa demonstração. Quanto mais restrito o campo de acção do produto, mais interessante se torna. E transmitiu à filha o gene do eish-olha-só-este-produto-que-tira-o-calcário-todo-às-torneiras. Agradecida. 

Até que se fez luz. Ao fim de 31 anos entendi. Há quem esteja uma vida toda sem entender as coisas, em geral, por isso considero desde já que esta realização é uma grande vitória para 2011. 

Passeava-me ontem pelas pacatas ruas do subúrbio quando surpreendo uma clássica do burgo a sacudir o paninho. Entre compreender de quem era aquele carro azul, quem era a loira que lá estava dentro e possivelmente memorizar a matrícula a senhora sacudiu o pano em 180 rápidos movimentos. Parece que estou a ver, um verdadeiro holocausto para os ácaros, a bicheza a tentar segurar-se mas o vigor do braço gorducho da senhora a insistir. Pimbas pimbas pimbas quem é aquela afinal??? pimbas pimbas... 

E finalmente compreendi: "sacudir o pano" é "ver o que se passa na rua". 
Para as senhoras de meia idade com pouco em que pensar "sacudir o pano" é sinónimo de "ver o que se passa na rua ao mesmo tempo que as pessoas pensam que sou asseada". No caso das adolescentes é sinónimo de "ver o que se passa na rua ao mesmo tempo que a minha mãe não me chateia os cornos". Só posso concluir que, para sacudir o pano, ou as hormonas são muito fortes ou o que se passa dentro de casa é muito fraquinho.

Karvela

1 comentário:

tagouy disse...

genial, nunca tinha pensado nisso mas faz todo o sentido, olha agora q estou desempregada e não tenho nada para fazer, deixa-me ir flapar....hiihhiih