segunda-feira, novembro 19, 2007

Tratar os filhos por você
ou
Ter cocó na cabeça.



Estava com o kramer na Bertrand do Chiado a fazer compras de Natal quando reparo que na secção infantil está uma mãe com uma criança com uns 4 anitos, sentadas na mesa dos putos, a ler. Ouvi vagamente algo como “… o papá está a chegar…” mas não liguei muito.
Sorte das sortes: estavam à nossa frente para pagar. Notei que, enquanto esperava, a mãe fazia um leve gingar, tinha os lábios tensos e a fazer um ligeiro beicinho. As betas mais velhas vestem-se todas horrorosamente. Não sei qual é o momento do clique, mas parece que chegam a uma certa idade e dizem "Pronto, desisto, vou vestir-me de Sacoor dos pés à cabeça, nunca mais calçar uns saltos, cortar o cabelo e ficar a parecer uma fufa amarga". Eis um bom tema para uma tese de mestrado. Só uma ideia que fica no ar.

Quando chega à vez dela e da filha, vira-se para a menina da caixa:

Beta gingona: Francisca, mostre à menina o livrinho para ver o preço.

A pobre da pequena Francisca estende o livrinho da Barbie, a menina vê o preço. 3 euros.

Beta gingona: Tá bem, pode ser. Mas agora quero pagar 5 euros daqui e o resto daqui.

O daqui e o daqui eram dinheiro e cartão de débito e a diferença enorme que ela tinha que pagar tirando os 3 euros era uma revista de moda carérrima, importada. E a criança quase teve que ir buscar o canito, pendurar-lhe uma lata na boca e começar a tocar acordeão para arranjar três euros para comprar o livro da Barbie e não incomodar em demasia a mãe.

Isto foi só o preliminar para o clímax que se seguiria. Lembro que eu e o kramer continuávamos atrás delas.

A Francisca, feliz da vida por ter um livrinho novo, começou a correr.

Beta gingona: Pipiu! Venha cá à mamã! Mau… Pipiu… queria fugir, era?

A miúda ri-se.

Beta gingona: PIPIU! O papá tá aí mesmo a chegar. A menina quer portar-se mal?
Francisca: Portar mal ou portar bem?
Beta gingona: Portar bem, claro… a mamã enganou-se. Agora venha aqui Pipiu, vamos embora.

Desde que ela começou a pagar a revista com dinheiro de dois bolsos que eu já estava a olhar para os lados, actualizando-me no que diz respeito a lançamentos da Betrand, devido à extrema urgência que tinha em não me rir. Mas desmanchei-me mesmo atrás da senhora quando ouço o kramer soltar um pequenino “ñññiiiiiiiiiii” por também não aguentar mais.

Pièce de resistance. O kramer chamou-me Pipiu quando estávamos a pagar e menina da caixa, qual estátua da Ilha de Páscoa, nada. Nem uma expressão, nem um relance. Juro que ouvi um grilo dentro da livraria. Nada.

Karvela (por acaso uma grande amiga minha trata os filhos por Piu. Mas também os põe a ouvir The Cure. Not the same.)
P.S. Ah e tal o teu blog está a cair na anglofonia. E sabes porquê, anónimo? Porque posso!

1 comentário:

Dreadasister disse...

Oh pah, de Pipiu para Piu ainda vai um 'cadito... LOL!
Amei, amei... A querida cada vez escreve melhor, tá a ouvir? Chiquérrima!
E isso da anglofonia é o novo preto, boa anónimo querido? Angloxófobo...