quarta-feira, maio 30, 2007

Momentinho embaraçoso

Nem sempre aceito os répteis, mas este da Bxana pareceu-me bem. Não me consigo lembrar de momentos daqueles "Ó terra, engole-me!", mas de certeza que os tenho e só estão aqui recalcados à espera do dia no qual algo estalará dentro do meu cérebro e começarei a matar os membros da minha família, um a um, com a serra eléctrica.

Por isso apelidei o meu de "momentinho" porque, em relação à descrição da Bxana, é apenas aquela ervilha mais pequena dentro da vagem que vai directa para o chão e nem se aproveita para fazer sopa.

Foi no 11º ano, creio. Do 10º ao 12º ano o grupo era sempre o mesmo: o Casih (que agora vai ser padre, nada que nos surpreenda porque todos nós seguimos ou o caminho da loucura ou o caminho do sacerdócio), a Olga, por vezes a Ana e eu. Apesar da turma se dar toda muito bem, nós quatro estavamos muito mais tempo juntos, porque a hora de almoço não era suficiente para ir a casa. Almoçávamos em 20, 30 minutos e o resto do tempo era utilizado para disparatar. Sentávamo-nos numa sombra, os professores iam chegando, nós fazíamos os diálogos deles ao longe: "Olá cara colega!" "Olá caro colega!" "Essa mamoca está bonita..." "Está, mas nada supera esse rabiosque lindo!"... e ríamos de estúpidos, perdidinhos com a aceitação da nossa própria demência.

Um dia, o Casimiro lembra-se de dizer: "Olha, a primeira pessoa que passar aqui à porta é transsexual!". Passa uma rapariga de quem ninguém gostava particularmente, rimos de estúpidos, e passou a ser a Zezinha Transsexual. Durante semanas espalhámos a piada entre os restantes colegas, ríamos de estúpidos, até que um dia a Zezinha descobriu. E, claro, apesar de ter sido o Casimiro o inventor da piada, aqui a vossa Karvela é que era a espalha brasas, por isso a culpa teria de ser minha. Admitirei sempre a culpa de espalhar por meia escola que ela era transsexual (é que entretanto o Fabricius delirava com o gossip e já tinha contado também ao pessoal das turmas do 9º ano), mas inventar a piada? Nunca!

Estamos nós no pavilhão polivalente a lanchar, a turma quase toda em peso quando a Zezinha vem ter comigo, aos berros: "OLHA, É VERDADE QUE SOU TRANSSEXUAL, TENHO DOIS SEXOS, O MEU E O DO MEU NAMORADO!"... ao que eu respondo "Mas isso não é ser transsexual...!"
Ela desapareceu furiosa e eu ainda choraminguei porque as minhas colegas não só ficaram mudas e quedas como depois não me defenderam, o que eu achei indecente porque todas tinham gozado com ela.

Mas este não foi o momento. O momento veio anos depois.
No ano seguinte a Zezinha entra para a faculdade ao lado da minha, tínhamos o mesmo horário, os mesmos transportes e, azar dos azares, uma amiga em comum que entrou para a faculdade dela. Ao fim de umas semanas de mau estar, pedi-lhe desculpa pela parvoíce. Ela, como até é mesmo uma gaja bem fixe, aceitou o pedido de desculpas e nunca mais falámos sobre isto. Algures no último ano de faculdade, estou na estação dos barcos com uma prima do Fabricius e a Zezinha, quando o Fabricius me telefona.

Fabricius - Estás sozinha?
Karvela (já a adivinhar o que aí viria) - Não, estou com a tua prima e com a Zznh...
Fabricius - Quem?
Karvela - A Zznh...
Fabricius - QUEM?
Karvela - A Zézinha!
Fabricius (tipo puto autista) - Aahahahah Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual!
Karvela (em pânico porque ouvia-se os gritos dele a 2 metros de distância) - Fab, por favor cala-te!!!
Fabricius (aumentando ainda mais o tom de voz) - Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual!
Karvela - Eu vou desligar, a sério, vou desligar.

Desligo. Nem três segundos passam, toca o telefone: Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha Transsexual Zézinha...

Eu não conseguia parar de rir. O que se ouviu cá fora foi, obviamente, eu a dizer o nome das pessoas que estavam sentadas ao meu lado, e depois rir, chorar, babar-me, ficar roxa de gargalhada, olhar à volta e notar que estava toda a gente a olhar para mim, limpar as lágrimas e dizer "Ah, este teu primo às vezes diz umas coisas..."

Karvela (não é grande momento, mas valeu pelo olhar para trás... tenho amigos muita parvos!)

2 comentários:

Bxana disse...

Venho por este meio informar que este relato, principalmente a última parte, foi o que me fez dar a primeira gargalhada do dia!

Que, aliás, só pode ser dada a esta hora graças a uma maravilha da humanidade chamada "Greve do metro - uma maneira de o/a obrigar a andar 5 km's logo pela manhã!".

Miaus!;)

Casih disse...

O que eu já me ri... com esta história!
bem... é verdade! fomos e somos amigos fantásticos, como a nossa professora de portugues (Alice) dizia, nós eramos loucos, o que valia é que também trabalhavamos... Para meu espanto, a 2desgraçada" da Clara é que arcou com as culpas... diga-se de passagem que eu não estava lá na altura da condenação e humilhação e executação da minha amiga... para minha humilhação... estava eu um dia na faculdade (de Teologia da católica), e desci á biblioteca... precisei de ir fazer uns pagamentos de fui ao balcão do BES, adivinhem quem me atendeu? Foi a zezinha... esse foi um daqueles momentos de "abra-se o chão e que me engulam as trevas". Comentei isso contigo Clara, na altura já me falaste da reconciliação... Nós eramos loucos... continuamos a ser... achei gira essa definição motivante do meu futuro Lol... obrigado por estes momentos...