quarta-feira, novembro 01, 2006

In Memoriam

Aproveito o tom sempre alegre do Dia dos Finados para contar histórias dos meus mortos, mas enquanto vivos.

Nunca conheci o meu avô paterno. Já a minha avó paterna era uma figura extraordinária. Minúscula mas com a força de dez serventes. Nunca vi uma camponesa gostar tanto de ler. Estava ela já num lar, onde passou os últimos anos da sua vida, quando me pediu um livro porque já tinha lido todos os da biblioteca. Primeiro levei livros pequenos mas um dia, após alguma hesitação, levo-lhe Os Maias. Daí a 15 dias volto à visita e foi esta a conversa:
Avó – Podes levar o livro.
Karvela – porquê? Não conseguiu ler? As letras eram muito miudinhas?
Avó – Não, já li há quase uma semana.

Eu deixei-me ficar calada porque tinha demorado bem mais do que um mês a ler. E ela na altura tinha 90 anos.

Os meus avós maternos também eram personagens. Ele, muito gordo, muito bruto, muito homem das obras reformado, mas tinha a particularidade de se alegrar com coisas tão simples como uma pratalhada gigante de comida ou com as netas a brincarem. A minha avó era bipolar, por isso oscilava entre estar muito bem e estar muito mal (tipo Elsa Raposo mas muito menos desequilibrada).
Uma tarde, estavam eles no quintal a regar as árvores, e o meu pai chama-nos para irmos ouvir a discussão.
Avô – (imperceptível)
Avó – Han? Não percebi!!!
Avô – (imperceptível)
Avó – Han????
Avô – Olha, bardamerda! Bardamerda, bardamerda, bardamerda trinta vezes!


Da minha avó paterna herdei este gosto por ler tudo o que me aparece à frente, a testa gigante e a vontade de ferro. Do meu avô materno herdei a gula e o interesse pelo investimento imobiliário (é estúpido mas é verdade). Da minha avó materna herdei a loucura, que está aqui latente e a ser canalizada muitas vezes para este blog, e que sei vai fazer com que eu acabe com 85 anos a atirar fezes contra as paredes do hospital psiquiátrico. Mas, mais importante, herdei a cor dos olhos. De todas as suas descendentes, eu e a minha mãe fomos as únicas que herdámos os olhos azuis que, com as misturadas masculinas, passaram a verdes. Podemos vir a ser bipolares, esquizofrénicas, loucas varridas, mas no fim, as pessoas vão pensar o mesmo que eu pensei quando a visitei no hospital dois dias antes de morrer “Bolas, a minha avó tem uns olhos lindos!”

Karvela

9 comentários:

kramer disse...

Belo post. Fiquei tocado. É bom ver que escreves tão bem (ou melhor) de assuntos que tocam bem no fundo, como de assuntos que tratam de "coisas" como o Castelo Branco.

BlueAngel disse...

Muito bonito!!!!! Belissíma homenagem!!!

Anónimo disse...

hoje é o dia de Todos os Santos e amanhã é que é o dos Finados.

Minerva McGonagall disse...

Muito bonito dona Karvela! Concordo com o Kramer.

Arnaldoooooo disse...

Karvela....tens uns olhos lindos.

W. disse...

Gostei do insulto. 30 vezes!

Casemiro dos Plásticos disse...

bonito, gostei!
abraço

míscaro disse...

Património:

substantivo masculino


1. herança paterna;

2. bens que se herdaram dos pais ou avós; bens de família;

3. zonas, edifícios e outros bens naturais ou materiais de determinado país que são protegidos e valorizados pela sua importância cultural;

4. RELIGIÃO dote necessário para a ordenação de um eclesiástico;

5. figurado riqueza; (gosto desta)

Marta disse...

A minha avó materna gosta de dançar músicas de rancho.
O meu avô fala, de acordo com a minha avó, castelhano. Nunca se percebe o que ele diz.
A minha avó é muito solidária. Da outra vez, o meu avô ficou aflito das costas e sem sensibilidade na perna direita por causa de andar a alombar calhaus de 50kg lá no parque de campismo, porque a minha avó não se calava que os queria em casa. Depois do diagnóstico de "trombose" por parte da minha avó, e de "lesão muscular causada por grande esforço à qual se aconselha umas semanitas de fisioterapia" por parte do médico, a minha avó solidariazou-se com ele e também ficou com dores nas costas e sem sensibilidade na perna direita.
São insubstituíveis!! E tenho a certeza que vou herdar as loucuras todas deles!!