domingo, agosto 06, 2006

Das férias

Prólogo

Para mim, os verdadeiros aventureiros são aqueles que vão um mês para a Índia só com uns tostões e um mapa. Os que levam o carro para Marrocos e quando dão por si estão atolados no deserto. Os que voam para um país da Europa central, alugam um carro e vão visitar todos os países à volta. Esses são os que podem dizer “Eu fiz!”.

A ditadura dos circuitos

Chegado Agosto começam as conversas de locais de férias. E, inevitável como a decadência e a morte, espreita ao canto a conversa sempre polémica dos circuitos. Para as pessoas que fazem circuitos, o mundo divide-se em dois tipos de pessoas: os aventureiros que conhecem 125 cidades de um país em 7 dias e sentem com intensidade os locais e as gentes; e os macacos que vão para os resorts. Eu sou uma dessas macacas que vai para resorts e, para mim, o mundo divide-se em dois tipos de pessoas: os que vão para hotéis com tudo incluído, descansar de um ano exigente, fazendo excursões para conhecer um pedaço do país; e os aventureiros de sofá que são aqueles que fazem circuitos.

Os circuitos estão para as férias como a maratona está para o descanso. Em férias eu quero dormir bem, comer bem, fazer alguma praia, passear, andar de autocarro da rede pública armada em turista, ver museus com ar de parola, usar sandálias e bikini o dia inteiro. Não quero correr o país inteiro em 5 dias, com as malas às costas. Mais ainda, não creio que haja uma real percepção do país, porque os guias só levam as pessoas a locais que são seguros, visualmente agradáveis e com um comércio local bem desenvolvido.

Exemplos:
Na Tunísia, os turistas dos circuitos (leia-se dormir em tendas) olham sempre com desdém para os que vão para hotel. Claro, porque eu não vou sair do hotel o tempo todo. Será que quem vai para os circuitos acha mesmo que eu não vou visitar a cidade mais próxima e que me vou ficar pelas animações nocturnas do hotel? Ou que não vou ter curiosidade em fazer uma excursão organizada pelos locais mais interessantes?
O famoso cruzeiro pelas ilhas gregas. Andar de barco. 7 dias. Um dia em cada ilha. Só para psicóticos.

Em qualquer um destes casos, creio que há um meio termo. Uma semana de cruzeiro ou circuito, intenso e cansativo, seguido de uma semana de resort, para não fazer boi. Assim já tínhamos acordo.

Os amigos de férias
Ou
Do asco

A conversa do cruzeiro pelas ilhas gregas já não estava a correr bem:
Senhora viajada e surpreendentemente foliona: “200 macacos ficaram em Creta e nós, os 25 do cruzeiro, fomos para Atenas que era o ponto de partida.”
Karvela, a misantropa: “Eu sou uma das macacas que vai para Creta, muito obrigada. Mas também não é nada importante, porque só se eu fosse doida é que ia com 24 estranhos passar 7 dias de férias.”

Isto levantou uma nova questão. A mesa do jantar era composta por seis pessoas. Três delas adoram fazer amigos em férias. Três delas detestam.
Karvela: “Quando estive em Cabo Verde fez-me muita confusão ver pessoas que não se conheciam de lado nenhum estarem a juntar mesas no restaurante do hotel e passarem as férias todas a fazer actividades juntos!”
Senhora viajada e surpreendentemente foliona: “Mas vocês não gostam de fazer amigos?”
Karvela: “Mas que amigos? Eu não vou para férias fazer amigos, vou para descansar, para estar com a família, para ter privacidade. Eu mal vejo a minha família durante o ano, naqueles dias gosto de poder fazer o que bem me apetece e às horas que bem me apetece, sem ter que estar a conviver com estranhos que em casa podem ser assassinos do machado!”
Marido folião da senhora viajada: “Bem, eu é que não gostava de me cruzar convosco em férias, que ainda me batiam se tentasse conversar convosco.”
Karvela (co-adjuvada pelos outros dois que concordam com esta visão): “Não somos anti sociais, nós falamos com as pessoas, se estamos em excursão, ou se por acaso se sentam perto de nós no restaurante ou na sala de estar, mas somos extremamente independentes. Se eu já não dou cavaco a ninguém no resto do ano, vou ter que me estar a explicar a estranhos?”
Senhora foliona que é surpreendentemente viajada: “Mas assim não gozam metade da experiência!”
(pensei que metade da experiência era fazer circuito para conhecer gente do país onde estamos e não para conversar com pessoas que podemos encontrar em Lisboa)
Karvela: “Para mim, as pessoas que fazem amizades com estanhos nas férias é porque se estão a borrifar para a companhia que levam de casa.”

Ficámos os três afamados de bestas com problemas comportamentais, mas eu quero deixar aqui bem claro que a minha bolsa de amigos está a fechar. Tão perto dos 30 já não há a disponibilidade mental para fazer novos amigos como antes. Eu lembro-me de ir de férias com 11 anos e fazer imensos amiguinhos e não entender porque é que os meus pais não faziam o mesmo. Mas agora, adulta, entendo. Eu não quero conversas de circunstância, eu quero estar na palheta com a minha família sobre coisas importantes ou sobre parvoíces ou sobre aquela alemã que está tão mal vestida, sem ter alguém de fora a julgar as minhas opiniões.

Epílogo

Eu não sou aventureira. Gosto da praia, do resort fechado e de poder ter a opção de ir visitar o país no meu tempo e de acordo com os meus limites. Um dia hei-de querer fazer um cruzeiro, viajar até às Caraíbas num barco ultra luxuoso e ir a uma praia diferente por dia. Mas não me façam ir a um circuito, cheio de calor, peganhento, com bichos e gente desconhecida. Não me obriguem a passar 7 ou 8 dias de malas às costas porque não é lógico: se ando cansada no resto do ano, porque raio hei-de eu cansar-me mais do que se estivesse a trabalhar?
E, sobretudo, não me ponham a conversar com pessoas que, por carência ou por necessidade de falar, me escolheram como alvo.

Karvela

4 comentários:

António Manuel Dias disse...

(...) se ando cansada no resto do ano, porque raio hei-de eu cansar-me mais do que se estivesse a trabalhar?

Como passo férias "cá dentro", isto para mim faz mais sentido assim: se ando o resto do ano a conduzir em bichas de trânsito, porque raio hei-de continuar a fazer o mesmo nas férias?

E, sobretudo, não me ponham a conversar com pessoas que, por carência ou por necessidade de falar, me escolheram como alvo.

Bingo.

Sandra Cunha disse...

Pois eu também concordo. Quero aproveitar as férias para fazer aquilo que não posso fazer durante os mais longos onze meses do ano: praia, já que sou daqueles pé-descalços que (por enquanto) não têm nem dinheiro para uma semana de férias fora.
Passar as férias dentro de casa frente ao computador e à televisão (como no resto do ano) só para loucos e eu ainda há tempos tive a confirmação da minha boa saúde mental passada por um psiquiatra credenciado!

tagouy disse...

Não podia estar mais de acordo contigo. estás mais velha e mas sábia.
Este ano como o dinheiro apertou passei as férias em casa a fazer aquilo que me apetecia dormir, estar com as pessoas de quem gosto (família amigos namorado)porque vida social tenho o resto do ano e em excesso... fui ao cinema várias vezes, consegui acabar o livro e puzzel que tinha começa há 2 meses, o dinheiro que gastaria em gasolina foi para comprar dvd's, ir a bons restaurantes, enfim umas férias caseiras mas deliciosas, souberam-me tão bem....

BlueAngel disse...

Estou contigo e não desarmo! Não digo que não se possa fazer amigos em férias, mas não é e nunca será um dos meus objectivos de férias. Jamais!!! POST APROVADISSÍMO!!!!!