sábado, maio 12, 2012

Conferências, seminários e outros congressos. Part Deux.



Capítulo 1. Factos conhecidos.

Eu sou pessoa que sai pouco de casa. É uma realidade, não é uma queixa. Pois se tenho pernas e viatura não há razão para estar em casa senão a constatação diária de que muitas pessoas são uns palermas e o desejo insaciável de não me cruzar com elas.

Também é de notar que, na vida real, ao contrário do blog, no meu grupo de amigos, conhecidos e colegas, eu sou talvez a pessoa mais pacífica, conciliadora (a chamada fucking hippie) e que, em geral, menos se chateia seja com o que for. A idade trouxe-me uma espécie de escudo pelo qual desliza praticamente tudo. E daí também a fraquíssima qualidade recente deste blog que não se alimenta de flores e cachorrinhos mas sim de ódio e pestilência.

É ainda facto que eu não sou pessoa que se indigna. Gosto de exercer o direito à não indignação. O mundo está carregadinho de activistas de sofá e eu ando aqui a fazer a minha parte com a investigação que desenvolvo, sem dramas, sem histerias, sem cóleras mal contidas.

Dito isto, ontem fui a uma conferência – que até foi boa, atenção! – acerca do meu tema de tese. Muito bem organizada, gostei mesmo. As comunicações começavam à hora, terminavam à hora e quem não estivesse azareco, chegasse depois. Por uma vez o público não foi dono e senhor da conferência, a organização é que impôs as regras. Por uma vez a hora académica não foi diferente da hora cronológica.

Capítulo 2. A pecha.

Durante a conferência houve comunicações excelentes. Dados importantes, matéria de discussão e reflexão. Mas, no meio, uma irritação que começou ontem mas que se avizinha recorrente para o remanescente da minha carreira: a piroseira das hormonas femininas que invadem as conferências e me provocam um misto de nojo e sono, que é um sentimento difícil de gerir em público.

Situação A. Vejo o nome de uma autora que escreve muito sobre o assunto. Era a moderadora. E digo à minha companheira de doutoramento “Ah, que giro, nunca a vi ao vivo. Espero que fale melhor do que escreve.” Esta senhora, quando se espreme muito bem o que ela escreve, oferece uns dados interessantes. Mas até chegar ao sumo temos que passar por uma polpa demagógica e caroços de poesia-de-caderno-da-Hello-Kitty. Habitualmente faço uma leitura diagonal (vá, já não leio) e sigo directamente para a conclusão, onde finalmente resume aquilo que se diria em duas páginas.

Enquanto moderadora tem um papel: apresentar os oradores, ver as horas, fazer um resumo no fim, abrir a discussão, se possível. Mas não. A poetisa decidiu fazer uma introdução oral muito ao modo das suas introduções escritas. Por momentos pareceu que iria irromper em canção. The Greatest Love of All, da tia Houston, veio à mente. Depois foi só um zumbido forte, pegar no telemóvel e ir espreitar o mail, que perdi o interesse. Lá está. Podia ter ficado toda irritada mas, em vez disso, etiquetei-a mentalmente e siga.

Situação B. A situação B cimentou os sentimentos que começaram a surgir na situação A. Uma senhora, que tinha uns dados interessantes e uma belíssima dicção, acaba a comunicação com um discurso moralista e fofinho e, para pontuar, um poema.

Soou-me condescendente, para mulheres, fofuchinho. Contra mim falo. Certamente já encafuei citações delicodoces em apresentações minhas. Mas visto de fora pareceu-me pouco científico. Estamos em ciências sociais. Batemo-nos constantemente pelo direito de sermos considerados ciência séria. Apresenta-se resultados, dados, teoria. Mesmo dentro da sociologia, o pessoal das classes sociais ou da agência e estrutura já olha para a família e infância como “aw, adorable!”. Começo a compreender que, por sermos gajas, isto ainda tem uma implicação mais hormonal.

Valeu-me de consolo o facto de ser uma conferência de psicologia. A ver se a pecha se mantém nos congressos de sociologia que aí vêm ou se vou ser mais simpática por serem os meus pares. É que, pronto, não é por nada, mas não gosto de psicólogos. 

Capítulo 3. Ensinamentos para o futuro.

Há uns meses o kramer foi ver uma comunicação minha. Disse que eu sou muito informal, deveria improvisar menos e oferecer mais dados. “Se tu passas a vida a estudar, tens conhecimentos sobre o assunto, não há razão para não mostrares que sabes.” Não sendo essa a minha postura (“mostrar que sabes”), a verdade é que ontem foi claro que tudo quanto não seja estritamente científico pode ser lido como falta de saber.

Portanto, retiro esta lição: se não corrijo a minha postura já tendencialmente informal, vou chegar à menopausa e as minhas apresentações vão estar pejadas de gatinhos e eu vou chorar e fazer apelos à acção. I believe the children are our future!!! *choro descontrolado*

Epílogo.

Sento-me num auditório que alberga centenas de pessoas. Uma tipa qualquer pede-me para sair do lugar onde ela estava sentada meia hora antes, para, cito “ficar perto das alunas”. Albarda-se o burro à vontade do dono. Eu movi-me para a cadeira do lado. "Então e nesta?" "Estava aí uma colega minha que não sei se vem." Sento-me na cadeira seguinte. Durante a conferência surge a vontade urgente de sair antes da última comunicação. E aí passei demoradamente com as mamas em frente à cara da doutora e da colega que nunca chegou, forçando-a a assumir uma postura submissa perante as fofas das alunas. Queres psicologia, filhadaputa? Toma lá um  bocadinho de fêmea alfa na testa. Em forma de tetas.

Karvela

sábado, maio 05, 2012

Baking soda

Mais uma pecha para acrescentar à minha crescente fama de grammar nazi: bicabronato de sódio.


Como em:



Eu - "A receita do bolo pedia bicarbonato de sódio"
Outro - "Ah, sim, porque o bicabronato de sódio é muito usado em bolos"
Eu - "Sim, sim... o biCARbonato de sódio faz um efeito qualquer, não é?"
Outro - "É, o bicabronato ajuda a levedar o fermento"

Por esta ordem de ideias eu hoje almocei massa, ou seja, hidratos de cabrono. E somos todos seres baseados em cabrono. Também se usa muito para saber as datas das descobertas arqueológicas, o cabrono 14. Há que ter atenção às emissões de monóxido de cabrono dos carros.

sexta-feira, maio 04, 2012

Stereotyping 101

Quando saí do meu casulo de assalariada precária e me transformei nesta bonita borboleta de bolseira precária a maioria das reacções foi de invejinha (soides umas putas esgaçadas, ide-vos foder). Os mais bem intencionados fizeram votos de boa sorte e alguns ex-doutorandos disseram-me "é a melhor altura da tua vida, aproveita!". Achei um exagero.

Pois que um bolseiro tem tempo. Tem. Pois que um bolseiro responsável tem noção que trabalhar ≠ passear no centro comercial ou combinar cafés. Tem! 

Mas agora descobri o bonito universo dos projectos e das equipas de investigação. Fui convidada para ser membro da, atenção, equipa de investigação de um, pimbas!, projecto. Esse projecto pode vir a ser financiado mas a equipa de investigação ganha, *drumroll*, zero. Incluindo a pessoa responsável pelo projecto, que vai ver, portanto, nenhum euros. E o trabalho é, sim senhoras, muito. 

Na minha cabeça soou "é a melhor altura da tua vida, aproveita". E chorei por todos os almoços que não degluti, todos os cafés que não ingeri. E nestas duas semanas que acabam hoje, enquanto me levantava às 7h da manhã, amaldiçoava a minha vida, gritava KHAAAAAAAN!, mas a incompreensão instalou-se e a verdade é que estou muito mal habituadinha a isto de não ter chefes e prazos largos e horas flexíveis.

Queixo-me só pelo valor da queixinha fácil. Porque ganha-se em currículo. Ganha-se (muitíssimo) em experiência. Ganha-se em contactos. Ganha-se em ego, que ser convidada para fazer parte seja do que for é um reconhecimento. Não sei de quê, mas é.

Contudo, enquanto não trocarem currículos por pães de cabeça estou bem tramada com isto de ser bolseira. É que ajuda à paródia o facto de não poder acumular salários. É bem que o funcionário público que vive cá em casa comece a oferecer broches no pinhal, que eu não tenho saúde para mais cortes salariais.

Karvela