sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Epic win aka post com bolinha devido ao linguajar

Hoje, inadvertidamente, encontrei no Facebook uma cara conhecida. Ninguém com quem tenha privado particularmente mas uma moça que, sem saber, provocou em mim uma memória duradoura e ainda hoje digna de uma valente cuspidela para o ecrã. De tal forma que ressuscitei do marasmo doutoral para vir aqui contar a história.

Escola secundária; Karvela com uns 14 ou 15 anos está ao lado de dois colegas a ver as modas.

V. - Olha, a D... não entendo porque é que o S. namora com ela...
Karvela - E é meu primo...!
V. - Ah é...? Tu percebes porque é que ele gosta dela? Eu não percebo, ela não tem piada nenhuma... deve ter uma ganda cona. 

Lembro-me vagamente de me ter cuspido de tanto rir e do V. se desfazer em desculpas porque usou uma palavra muito forte ao pé de mim e porque afinal era a namorada do meu primo e nhe nhe nhe. Desde esse dia até hoje a D., quer no Facebook, quer na vida real, quer no meu imaginário será sempre a rapariga que agarrou o meu primo devido ao seu portento vaginal.

Lamento, rapariga, mas de facto continuas com atributos tão medíocres à vista desarmada que só me dá para pensar que a razão esteve sempre do lado do V.

Karvela 

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Projeccionistas. A cautionary tale.

Bem sei que vos escrevo em plena moléstia e não sei se será por isso que tenho uma leitura tão alternativa da notícia preferida dos últimos dias, da senhora que esteve nove anos morta num apartamento. As manifestações públicas de pesar parecem-me uma clara projecção do medo de acabar da mesma maneira. Pessoalmente é isso que temo, dar-se-me o fanico e ninguém chegar nos nove anos seguintes para me acudir. 

Depois vêm as almas sensíveis carpir a sorte dos pobres idosos, que tão sozinhos estão. Sim, há muitos idosos que estão sozinhos e têm filhos e netos que podiam ter levado mais na boca quando eram piquenos para aprender a respeitar os mais velhos. E isso é de facto muito triste. As histórias de idosos abandonados nos hospitais partem-me o coração em mil pedaços; nem tenho palavras suficientes para exprimir a consternação que me causa.

Mas também há pessoas que escavam esse fosso durante toda a vida e depois chegam a velhos e esperam que tudo seja perdoado. Na minha família tenho alguns exemplos... tenho tios que não sei se vivem se morrem. E francamente interessa-me muito pouco porque toda a vida se afastaram voluntariamente, foram maus, foram mesquinhos, não perguntam se os familiares estão bem senão para alardear de seguida o quão mais espectacular está a vida deles. Tenho familiares que se se finassem num apartamento a não sei quantos quilómetros e não me aparecessem à frente só me dariam a entender que estavam a ser mais do mesmo que foram toda a vida.

Esta história e os medos que despertou é menos sobre famílias que abandonam idosos e mais sobre pessoas que se isolam e depois esperam um fim diferente. Vão lá tratar bem os vossos amigos e um ou outro familiar e daqui a cinquenta anos vejam as recompensas que vos esperam. Ou então não, continuem a ser as bestinhas anti-sociais que são e depois quando se engasgarem numa côdea de pão peçam ajuda aos 12 gatos. 

Karvela

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Delírios febris

Ainda estou para decidir o que foi que vi, exactamente.

Hoje passeei o Óscar. Decidi sair porque estou um bocado constipada e a temperatura da tarde oferecia ar fresco sem frio debilitante. Depois de uma tarde semi acamada precisei mesmo de ir respirar. E o Óscar sempre sai do seu marasmo balofo. O povo sabe que eu vivo mesmo ao lado de uma base aérea, motivo pelo qual somos testemunha frequente de espectáculos de luz e cor. Sinto falta sincera dos tempos em que era uma base mais activa e em que íamos para a cerca que divide os militares das pessoas normais sentir os aviões a passar a poucas centenas de metros das nossas imberbes moleirinhas. Também foi giro quando tirou anos de vida à minha mãe, no dia de aniversário da minha avó, enquanto ela batia um bolo e um avião caiu a 400 metros da nossa casa. A imagem da minha mãe, de boca aberta e colher de pau a pingar açúcar e ovos, é algo que para sempre fará parte da mitologia familiar.

Pois a tal divisória da base é um sítio calmo para se ir passear animais. Poucos carros, muito campo para a bicheza correr e o passeio é agradável. Há um momento do passeio no qual o Óscar tem tendência para virar à direita. É um sítio de campo aberto cheio de ervas, urtigas, casas semi (des)construídas, poços e sanitas [não perguntem, não saberei responder]. Hoje, mesmo ao virar dessa esquina, dou de caras com uma senhora prateada [*entra música celestial*]. A senhora era prateada porque era uma jovem branca como a cal, óculos de sol, cabelo branco, casaco de penas prateado e calças de fato de treino cinzentas. Olhei demoradamente para ela, até para dizer boa tarde, que eu sou moça para falar a todómundo, apesar do fel. A senhora olhou-me de volta, não me respondeu e o Óscar ignorou-a solenemente. Ia mesmo embora sem pensar duas vezes no assunto quando o Óscar teimou em ficar à sombra de uma árvore e eu voltei para trás. A senhora ali estava, a ler uma folha branca gigantesca, a olhar demoradamente para os carros que passavam do lado de dentro da vedação da base.

Opções: 
1. Se eu estivesse de facto febril e o calendário ditasse os idos de mil nove e dezassete, estava feito: foi aparição. A senhora prateada apareceu e transmitiu-me uma mensagem mental de paz e amor e cuidado com as urtigas que um dia destes o teu cão está a fazer o xixi e pica-se na pilinha. Ou isso ou um ET. Um ET é a opção 1A. Fogo… será que vi um ET? Awesome! 
2. Uma mulher descoroçoada, a ver se o marido estava ou não a sair a horas do trabalho. Na base a hora de parir a galega é às 17h e lá estava ela, camuflada [dentro do género], a ver se o marido passava no carro às 16h com uma matulona militar. 
3. Uma espiona. A peruca, a roupa de mulher-de-branco, a atenção às movimentações, o jornal gigante para se camuflar [dentro do género]. Fica o apelo: se durante a noite isto explodir tudo num frenesim nuclear e a minha lápide ler tristemente "Aqui jaz Karvela. Levou com uma sanita na cabeça", procurem a senhora prateada, que ela tem todas as vossas respostas.

Amanhã tenho mais que fazer mas quarta-feira, à mesma hora, lá estarei. E desta vez mando o Óscar ir fazer as suas fosquices a ver se a senhora fala português ou Glorg219. Esperando sempre que ela não me mate com o seu taser intergaláctico.

Karvela

Interval fighting

Ter vizinhos que ouvem música alta e que gritam entre si e que batem com as portas não é tão estranho quanto ter vizinhos que fazem tudo isto aos sacões. Cinco minutos de música, descansa uma hora. Dez minutos de discussão, descansa duas horas. Batem as portas e os tachos durante oito minutos, descansam a noite toda. Está certo. 

Karvela

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Conferências, seminários e outros congressos.

A tasca anda silenciosa porque, como desabafei pelas redes sociais, trabalhar em casa dá cabo da criatividade a um gajo [dito isto, a minha porta da sala abriu-se sozinha e se o fantasma que mora cá em casa decide dar a cara vou ter que me urinar toda]. O trabalho aperta e a mera visão de SPSS e variáveis numéricas estrangula-me a veia artística [e o tempo que eu demorei a encontrar um sinónimo para criativa?]. 

Entretanto ontem fui botar faladura a uma conferência. O propósito era a apresentação de projectos de mestrado, doutoramento e pós doc. Fui ao meu painel e por pouco não regressava à base, doente como um cão doente, e hoje já não tive coragem para lá voltar. 

Deixo-vos algumas palavras de sabedoria, que Karvela é vossa amiga e deseja-vos o bem.

Para a organização:

1. Não ponham mais gente na mesa que na audiência. É constrangedor. E não chamem as pessoas um a um para a mesa, como se estivessem a anunciar a Miss Universo.

2. Arranjem moderadores que saibam ver as horas e que não deixem os primeiros esticar-se e os últimos terem que falar a correr [e eu já não falo suficientemente depressa, melhéres?]. Ter o relógio em cima da mesa é um tique muito professoral mas só funciona se o utilizarem como medidor de tempo.

3. Finalmente, para uma correcta imposição de autoridade aos mais seniores, cuja verve ultrapassa os pobres juniores, por favor encontrem alguém com coluna vertebral. 

Para os companheiros palestrantes:

1. Esta é especialmente dirigida aos companheiros brasileiros. Ontem estavam duas meninas brasileiras na minha mesa. E eu tenho sempre tendência [e noto que as audiências também] para ouvir os brasileiros com mais atenção. Aquilo soa melhor que em português fanhoso [o meu português é um género fanhoso-veloz-com-sotaque-hermético-da-margem-sul-com-afinidades-alentejanas]. Mas, pessoas, ninguém compreende de quem é que estão a falar quando dizem nomes de autores anglófonos. É humana e linguisticamente impossível. 

2. O PowerPoint é nosso amigo. Mas mesmo nosso amigo. Se querem escrever muito escrevam muito, se querem escrever pouco escrevam pouco. Mas, digo-vos agora e já que é para depois não se queixarem quando eu me levantar e vos for dar uma belinha em plena conferência da próxima vez: não façam apresentações animadas. O discurso nunca se compadece com o tempo da apresentação e o tempo que demoraram a fazer fernicoques para mostrar que dominam as ferramentas do Office é altamente superior àquele que demoram a carregar no enter ou na setinha. E não ponham bonecos que ilustram nada, é foleiro e infantil.

3. O chamado quote dropping. Eu tenho lá como saber se o Xiribi da Esquina disse que "Os povos juntam-se para agregar a felicidade"? Quando começam a citar autores entro em transe, ouço um zumbido nos ouvidos e em tendo levado mala onde caiba a AK sou menina para atirar a matar. 

4. Não há quote dropping que não venha acompanhado de name dropping. Se não for pertinente, não digam Giddens ou Beck ou Therborn. Nas aulas já é suficientemente irritante ter que levar com aquelas fofuras de colegas que dizem "Mas isso não é necessariamente o que é defendido por Margaret Archer" e depois olham para os lados a ver se o seu brilhantismo está a ser reconhecido. O que está a ser reconhecido é o profundo enfado que me despertam. E não façam name dropping obscuro. Eu sei lá quem caralho são os vossos autores base! Se eu disser Qvortrup, Prout e James vocês ficam a saber mais, menos ou o mesmo que antes? O pedantismo é tão feio que devia ser coimado.


Ouçam-me que eu não duro sempre. 

Karvela (adoro posts que me fazem arregaçar as mangas quando escrevo!)